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  • Allan Veríssimo

Halloween (1978): O seu vizinho pode ser um Michael Myers.


Noite de Halloween, 1963, na cidade de Haddonfield, Illinois. Michael Myers, um garoto de seis anos de idade, sem qualquer tipo de motivação lógica, assassina sua irmã adolescente com uma faca de cozinha. Michael é internado no Sanatório de Smith Grove, sob os cuidados do Dr. Samuel Loomis (o lendário Donald Pleasence). 15 anos depois, na véspera de Halloween, Michael escapa do asilo e volta para a sua cidade natal, perseguido pelo Dr. Loomis, que alerta as autoridades. Mas ninguém imagina que Michael já escolheu sua presa: Laurie Strode (Jamie Lee Curtis, filha da atriz Janet Leigh, de Psicose, anteriormente analisado nesse blog), uma estudante de colegial que, com a ajuda das suas amigas, está cuidado de duas crianças no Halloween. E ela logo começa a questionar quem é o misterioso mascarado que está seguindo-a o dia inteiro...


E por que Halloween foi tão bem sucedido? A resposta é simples: porque é um excelente filme de horror, feito com um orçamento baixo ($320,000) e muita criatividade e talento pelos seus realizadores: da direção de Carpenter, que usa e abusa da câmera em primeira pessoa, jogando o espectador no meio da ação, até a brilhante trilha sonora (também composta por Carpenter), passando pelo ótimo elenco. Jamie Lee Curtis é um show de simpatia como a pura e inocente Laurie Strode, uma garota que morre de timidez em falar com o garoto pelo qual está interessada e que tosse descontroladamente quando tenta fumar o cigarro de maconha oferecido pelas suas amigas mais promiscuas. Já Donald Pleasence devora todas as suas cenas como o Dr. Sam Loomis, um homem amargurado e paranoico que, ironicamente, é o único são dessa história, compreendendo a monstruosidade do seu paciente e disposto a pará-lo para compensar o fato de que fracassou como seu psiquiatra.

E acima de tudo, temos o visual icônico do vilão Michael Myers, cuja máscara de William Shatner (o Capitão Kirk de Star Trek), inexpressiva e que esconde os olhos, apenas ressalta a falta de humanidade de Michael (e o fato dele respirar com frequência, a lá Darth Vader, só o torna mais assustador).


“Halloween” é uma recomendação perfeita para as pessoas que subestimam o gênero horror, já que visualmente, o filme é repleto de enquadramentos e planos memoráveis. Desde o prólogo, onde Carpenter mostra o assassinato da irmã de Michael pelo ponto de vista do vilão (com a câmera chegando a ser coberta pela máscara de Michael, forçando o espectador a ver a ação literalmente apenas pelos olhos do assassino) até planos como aquele que traz Michael saindo literalmente das sombras para assassinar sua vítima. E apesar de toda a tensão e suspense, Carpenter ainda consegue encontrar espaço para as risadas provocadas pelo nervosismo e humor sombrio, algo comprovado na cena em que Michael assassina um pobre coitado prendendo-o na parede e fica parado por alguns segundos, admirando a sua obra de arte (chegando a mover a cabeça no processo para ver aquilo de todos os ângulos possíveis).


Halloween se tornou uma longa franquia e das mais confusas: em 1981 tivemos “Halloween 2”, que começava imediatamente no mesmo ponto onde o primeiro filme termina. Em 1983, os mesmos cineastas realizaram “Halloween 3”, que contava uma história independente, sem qualquer relação com Michael Myers, numa tentativa de transformar a franquia numa antologia de horror. O filme fracassou de público e crítica (embora hoje seja cult), e as partes 4 (“O Retorno de Michael Myers”), 5 (“A Vingança de Michael Myers”) e 6 (“A Maldição de Michael Myers”), lançadas respectivamente em 1988, 1989 e 1995, trouxeram Michael de volta para os holofotes, mas dessa vez sem o envolvimento de John Carpenter, apenas com Donald Pleasence como protagonista. Com o falecimento de Pleasence e o fracasso retumbante da parte 6, os produtores decidiram que o sétimo (“Halloween H20”) e oitavo filme (“Halloween Ressurreição”), que trouxeram Jamie Lee Curtis de volta como Laurie Strode, iria ignorar os eventos de quase todas as continuações, exceto o segundo filme. Após o fracasso da parte 8, a franquia permaneceu morta por alguns anos, até que Rob Zombie tentou ressuscitá-la com uma refilmagem e uma continuação, que acabaram não tendo melhor sorte do que os filmes anteriores. Mais recentemente, a franquia retornou novamente com “Halloween 2018”, que também ignora quase todas as sequências e é uma continuação direta do primeiro filme;

No decorrer desses quarenta anos, a história de Michael Myers virou uma completa bagunça: descobrimos que Laurie Strode na verdade era uma irmã secreta de Michael. Depois apareceu uma sobrinha criança de Michael que se tornou seu novo alvo durante vários filmes. Aí teve o filme onde descobrimos que Michael é escravo de uma seita druida, o filme onde Michael invade um reality show e mata os participantes, o filme onde Michael tem delírios um fantasma montado em um cavalo branco, e por aí vai... Pois em Hollywood, a maldade de um serial killer não é nada comparado com a ganância de produtores e a incompetência de roteiristas.

E ainda que algumas dessas continuações sejam legitimamente boas, na dúvida, fique sempre com o original. Pois, sem apelar para o banho de sangue, Carpenter mostrou que as vezes, uma pessoa com um rosto normal e assustado escondido por uma máscara é mais perturbador do que qualquer assassino desfigurado. O seu vizinho pode ser um Michael Myers...





Allan Veríssimo

Cinéfilo, formado em Cinema e Audiovisual pela São Judas, cursando Jornalismo na Universidade Santa Cecília.

É Diretor, produtor e roteirista, colaborador dos sites Ligado em Série, Cine Alerta e Gelo e Fogo, além de estar aqui com a gente toda quarta-feira abrilhantando nosso blog com seu talento.

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