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  • Allan Veríssimo

Desaparecido (1982): Ainda é uma crítica atual.


“Um povo que não conhece sua história está fadado a esquecê-la.”

O cineasta grego naturalizado francês Costa-Gravas é conhecido e aclamado pelos seus filmes de cunho político, abordando as injustiças sociais como os temas da sua filmografia. Um dos principais exemplos da sua sensibilidade em abordar temas pesados, que poderiam facilmente cair para o sensacionalismo barato nas mãos erradas, encontra-se em “Desaparecido – Um Grande Mistério”, lançado em 1982.

Baseado numa trama real, a trama do filme é situada durante os primeiros dias de um golpe militar no Chile, em 1973, quando o executivo norte-americano conservador Ed Horman (Jack Lemmon, Se Meu Apartamento Falasse) chega a Santiago com o objetivo de encontrar seu filho Charlie (John Shea), um jornalista idealista que desapareceu misteriosamente, sem deixar quaisquer vestígios. Ao lado da nora Beth (Sissy Spacek, Carrie, a Estranha), com o qual não tem uma boa relação por discordar de suas opiniões políticas, Ed procura pelo filho pela cidade. Inicialmente achando que tudo não passa de algum mal-entendido causado pelos ideais e pela irresponsabilidade do filho (aos olhos do pai), Ed logo começa a perceber que a situação é ainda mais desesperadora do que imaginava, quando as autoridades americanas burocráticas no país se recusam a cooperar, ao mesmo tempo em que ele contempla, com seus próprios olhos, a monstruosidade impiedosa da ditadura de Pinochet.


Do início ao fim, “Desaparecido” é um filme excepcional, que conta com um belo trabalho de direção e de roteiro de Costa-Gravas (que co-escreveu com Donald E. Stewart). Sem jamais apelar para o melodrama fácil através de trilhas sonoras exageradas, Costa-Gravas constantemente se limita a retratar o horror da situação no Chile e deixar o espectador tirar suas próprias conclusões. Exemplo disso são quando Beth e Ed inicialmente ficam horrorizados com a situação do país, com sons de tiroteios ecoando constantemente ou cadáveres jogados no meio da rua, apenas para que, no decorrer do filme, eles parem de se assustarem com essas visões e infelizmente, lidam com aquilo com uma indiferença inevitável.


Mas o grande trunfo de “Desaparecido” é o seu elenco: o veterano Jack Lemmon, conhecido por transitar tão bem entre a comédia e o drama em sua longa carreira, aqui entrega uma de suas performances mais comoventes. Inicialmente, Ed é retratado por ele como um ser humano antipático, aquele típico parente conservador que toda família tem, que confia cegamente nas autoridades e acha a juventude aborrecida e inconsequente. O belo arco dramático do personagem, com ele percebendo que estava errado e cada vez mais indignado com o horror ao seu redor, é convincente, culminando em uma das cenas mais poderosas da filmografia de Lemmon, quando Ed finalmente se desespera e implora para uma autoridade, cansado e lacrimejando, por qualquer tipo de conclusão para a busca pelo filho, embora já saiba que ela não irá lhe trazer nenhuma satisfação. Já Sissy Spacek, a eterna Carrie, a Estranha, também entrega uma belíssima performance, concebendo uma mulher simpática e idealista (mas não ingênua) que acaba sendo forçada a se endurecer para sobreviver sem o marido. E assim, essas duas almas perdidas, em uma cidade que se recusa a ajudá-los, finalmente encontram um elo emocional e empatia um pelo outro... infelizmente, às custas de uma tragédia.


Como Pinochet ainda estava no comando do Chile na época da produção, o longa teve que ser filmado no México. Foi indicado aos Oscars de Melhor Filme, Ator, Atriz, e venceu na categoria de Roteiro Adaptado. Em 1983, um ano depois do seu lançamento, o filme foi processado pelo embaixador norte-americano retratado na trama. Consequentemente, o longa foi retirado do catálogo da Universal e retornou ao mercado de vídeo apenas em 2004, após o estúdio ter ganhado o processo jurídico.

“Desaparecido” pode contar uma trama situada no Chile, mas os temas são universais. Em tempos em que pessoas mau-caráter chegam a afirmar que não houve uma Ditadura Militar no Brasil, e nem torturas ou assassinatos, filmes como “Desaparecido” são mais importantes do que nunca. Pois o Cinema é Arte, e a Arte é sempre um reflexo não só da época em que foi realizada, como também do que a humanidade tem de melhor e de pior.




Allan Veríssimo

Cinéfilo, formado em Cinema e Audiovisual pela São Judas, cursando Jornalismo na Universidade Santa Cecília.

É Diretor, produtor e roteirista, colaborador dos sites Ligado em Série, Cine Alerta e Gelo e Fogo, além de estar aqui com a gente toda quarta-feira abrilhantando nosso blog com seu talento.

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