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  • Allan Veríssimo

Fyre Festival: Fiasco no Caribe

Atualizado: há 5 dias




Fyre Festival: Fiasco no Caribe

Durante os 97 minutos do documentário “Fyre Festival: Fiasco no Caribe”, há apenas uma coisa que qualquer espectador são pensaria: “Meu Deus, como tantas pessoas conseguiram ser tão idiotas ao mesmo tempo?”.

Resumindo uma longa história, o documentário narra a história do Fyre Festival, cofundado pelo rapper Ja Rule e pelo jovem empresário Billy McFarland em 2017. O Fyre Festival era um evento promocional para um aplicativo de música de McFarland, com ingressos que iam de $1200 até $250,000. O impressionante comercial protagonizado por modelos e influenciadores digitais prometiam um festival de música de 3 dias numa ilha deserta e paradisíaca no Bahamas, com músicos famosos. O evento prometia vilas modernas e incríveis como acomodações, e comida exótica e o melhor, preparada por chefs de primeira qualidade. 95% dos ingressos foram vendidos nas primeiras 48 horas.

O que poderia ter dado errado?

Tudo, e da pior maneira possível.

Fyre Festival: Fiasco no Caribe

O que nenhum dos envolvidos no evento sabiam, pelo menos não até ser tarde demais, é que McFarland era um completo incompetente. O primeiro dos muitos maus presságios ocorreu quando McFarland perdeu a ilha deserta que tinha comprado para ser a localização do evento: a ilha outrora pertenceu a Pablo Escobar (sim, aquele Pablo Escobar), e o dono atual a tinha cedido sobre a condição de que esse detalhe ficasse de fora das divulgações. Eis que o imbecil do McFarland entregou essa informação no primeiro comercial do evento, resultando no inevitável: a perda do direito à ilha faltando menos de dois meses para a data marcada.

McFarland então mudou o endereço do evento para uma área perto da praia que não era nada deserta (era possível chegar num hotel nas redondezas, andando a pé por alguns minutos) e muito menos paradisíaca (pois ficava num morro e numa área destinada para construção de casas). Vários artistas não foram pagos, e não demorou para todos eles serem alertados pelos seus agentes sobre a roubada que o evento seria e pularam fora no último minuto. Mesmo com 200 operários locais trabalhando nas obras, estava claro que o evento não iria ficar pronto a tempo e todos os envolvidos tentaram convencer McFarland a adiar a data do evento, sem sucesso. Na véspera do dia marcado, uma enorme chuva destruiu o pouco que os operários tinham conseguido construir, e os envolvidos se prepararam para o pior.


Quando o dia da estreia finalmente chegou, aconteceu o esperado: as centenas de pessoas que chegaram no aeroporto e foram de ônibus para o evento esperando algo maravilhoso ficaram horrorizadas em descobrir que o lugar era visualmente feio, com os operários ainda construindo metade da estrutura, as cabanas luxuosas prometidas na verdade sendo tendas para furacões em péssimo estado, colhões encharcados de água e que ficavam no chão, sem banheiros, e as comidas exóticas sendo na verdade sanduíches de queijo e salada que pode-se encontrar facilmente em qualquer lanchonete.

Quando nenhum músico apareceu e a noite chegou, o caos se instalou. Percebendo que o sonho virou pesadelo, os organizadores cancelaram o evento e mandaram os convidados irem embora... O que não era de maneira alguma possível, já que aquelas pessoas não haviam comprado passagens para a volta. Durante a noite, pessoas ficaram assaltando as bagagens das outras, uma tenda pegou fogo, e no dia seguinte, as centenas de convidados ficaram horas presos no aeroporto sem comida e água, com apenas álcool disponível.

Fyre Festival: Fiasco no Caribe

O documentário da Netflix vale cada minuto, com um material de arquivo impressionante, que mostra desde a produção do evento, que só ressalta a megalomania de McFarland, até as reações de choque e desespero de todos durante o desastroso evento. Embora tenha vários momentos cômicos, o documentário também é dramaticamente eficiente, mostrando como McFarland arruinou a vida de milhares de pessoas nessa história, e não apenas os “ricos privilegiados” (a maneira como a maioria foi retratada pela mídia): após o desastre, McFarland deu calote em todos os operários locais, que até hoje não ganharam um único centavo pelos meses de esforço duro na empreitada (os funcionários da empresa do McFarland que estavam na região até fugiram rapidamente para o aeroporto quando perceberam que iriam ser linchados pelo povo). Um dos momentos mais emocionantes é a de uma senhora dona de uma restaurante local que, sem conter as lágrimas, conta como mesmo depois de levar calote dos organizadores, cumpriu a sua palavra e pagou os seus 10 funcionários, saindo no completo prejuízo.

No final das contas, o documentário também é um retrato fascinante da sociedade do século 21, mostrando como milhares de pessoas foram enganadas por influenciadores digitais irresponsáveis que divulgaram esse evento, mesmo sem se importar com o que estava acontecendo de verdade. E ainda que McFarland tenha sido punido no final, ainda é lamentável que tantas pessoas sofreram dores físicas e psicológicas nessa história tragicômica...




Allan Veríssimo

Cinéfilo, formado em Cinema e Audiovisual pela São Judas, cursando Jornalismo na Universidade Santa Cecília.

É Diretor, produtor e roteirista, colaborador dos sites Ligado em Série, Cine Alerta e Gelo e Fogo, além de estar aqui com a gente toda quarta-feira abrilhantando nosso blog com seu talento.

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