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  • Allan Veríssimo

Um dia de Cão - O assalto fracassado mais querido do cinema!


Sidney Lumet foi um dos grandes Mestres do Cinema, tendo iniciado sua carreira em 1957 com a obra-prima “12 Homens e Uma Sentença” e encerrando-a em 2007 com “Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto”. No decorrer de cinco décadas, Lumet comandou grandes obras cinematográficas como “Serpico”, “Rede de Intrigas”, “O Veredicto” e, é claro, “Um Dia de Cão”, que completou 45 anos de existência nesse mês de setembro.

Baseado em uma história real, “Um Dia de Cão” é situado em 22 de agosto de 1972, num dia absurdamente quente no Brooklyn. Dois completos fracassados, Sonny e Sal (interpretados respectivamente por Al Pacino e John Cazale), assaltam um banco com o objetivo de conseguirem dinheiro para a cirurgia de sexo do noivo de Sonny. Mas tudo que poderia dar errado no plano deu errado: um terceiro cúmplice se acovarda e abandona os dois criminosos à própria sorte, ainda no início do assalto; a dupla descobre horrorizada que quase todo o dinheiro do banco foi retirado horas antes e que sobrou apenas uma soma insignificante; e para finalizar a desgraça, a polícia descobre o que está acontecendo e rapidamente cerca o banco. Os dois bandidos entram em pânico e utilizam os funcionários do banco como reféns, numa tensa negociação com a polícia que se estenderá pelo resto do filme. E a situação fica ainda mais problemática quando alguns dos reféns e até mesmo a população que está assistindo tudo, tanto do lado de fora quanto pela televisão, começa a demonstrar seu apoio e simpatia pelos bandidos.


Com exceção da breve montagem inicial mostrando rotina de mais um dia em New York e dos dez minutos finais, “Um Dia de Cão” é situado do início ao fim em uma única locação, o banco onde ocorre o assalto. Teoricamente, isso deveria ser um tormento para qualquer diretor, mas felizmente Lumet jamais deixa o ritmo cair, graças a força do roteiro de Frank Pierson e do elenco. O filme também se beneficia de não ter nenhuma trilha sonora, com o silêncio e os sons da multidão e dos poucos tiros disparados ao longo da projeção aumentando o suspense. Além disso, apesar do filme ser bastante tenso, Lumet também consegue utilizar um senso de humor macabro no longa com eficiência, sem jamais soarem forçadas, em cenas como o entregador de pizzas que fica feliz ao participar do evento ou quando Sal, ao ser questionado para qual país gostaria de fugir, responde pateticamente: “Wyoming”.

Como o saudoso crítico de cinema Roger Ebert disse uma vez, está no DNA do cinéfilo se identificar com o protagonista da história, por pior que ele possa ser ou parecer. Não é surpresa então que Al Pacino e John Cazale, ótimos como sempre (ambos contracenaram juntos como os irmãos Michael e Fredo Corleone em “O Poderoso Chefão” 1 e 2), conseguem fazer o espectador se importar com o destino da dupla criminosa. Pacino interpreta Sonny como alguém que claramente pensa ser mais sofisticado e inteligente do que é, mas que na verdade se revela totalmente despreparado para a situação e até patético em suas pretensões. São pequenos detalhes das performances da dupla que conseguem tornar seus personagens mais humanos e reais, como quando Sonny, ao iniciar o assalto, acaba tendo dificuldades para se livrar do laço da caixa onde a sua arma estava escondida, ou quando Sal fica ofendido ao descobrir que está sendo chamado na televisão de homossexual, ou ainda quando discute com um dos reféns que ela deveria parar de fumar por fazer mal a saúde (algo trágico em retrospecto, já que Cazale faleceria precocemente em 1978 devido a um câncer). Finalmente, de todo o eficiente elenco de apoio, também se destaca Chris Sarandon (A Hora do Espanto, Brinquedo Assassino) como Leon, o noivo angustiado de Sonny (as conversas com o casal por telefone são belíssimas), e Penelope Allen, como uma das reféns que tenta, mas não consegue esconder que está gostando da atenção provocada por toda a situação,

Ainda assim, apesar dos criminosos serem simpático, é admirável que o longa jamais chegue a retratar os policiais como os “vilões”. Mesmo o personagem do Sargento Moretti (Charles Durning) é retratado como uma pessoa razoavelmente sensata que está tentando desesperadamente lidar com a situação antes de finalmente perceber como tudo saiu do controle tão rápido. O filme também faz um retrato sutil do poder e influência na mídia: inicialmente, Sonny é visto como um herói pelo povo, principalmente quando ele menciona, durante a negociação, o massacre de prisioneiros na prisão de Attica. Quando a mídia revela que ele é gay, a admiração do povo logo se transforma em zombarias e homofobia (nesse aspecto, o filme também acerta em jamais fazer qualquer tipo de representação homofóbica em torno de Sonny e Leon).

Não espere um final feliz aqui: afinal de contas, esse é um filme realizado no auge da era da Nova Hollywood dos anos 70. Mas você pode esperar uma bela obra.





Allan Veríssimo

Cinéfilo, formado em Cinema e Audiovisual pela São Judas, cursando Jornalismo na Universidade Santa Cecília.

É Diretor, produtor e roteirista, colaborador dos sites Ligado em Série, Cine Alerta e Gelo e Fogo, além de estar aqui com a gente toda quarta-feira abrilhantando nosso blog com seu talento.

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