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  • Allan Veríssimo

O Massacre da Serra Elétrica (1974): A lenda.


“O filme que você está prestes a assistir é um relato da tragédia que se abateu sobre um grupo de cinco jovens, em particular Sally Hardesty e seu irmão inválido, Franklin. É ainda mais trágico por serem jovens. Mas, se eles tivessem vivido uma vida muito, muito longa, eles não poderiam esperar, nem gostariam de ver tanta da loucura e do macabro quanto eles veriam naquele dia. Para eles, uma viagem idílica à tarde de verão tornou-se um pesadelo. Os eventos daquele dia levariam à descoberta de um dos crimes mais bizarros dos anais da história americana, o massacre da serra elétrica do Texas.”


É dessa maneira tétrica que uma das grandes obras-primas do horror começa. E para deixar claro que essa não será uma jornada bonita de se assistir ou de ouvir, após essa introdução, o diretor Tobe Hooper (em sua estreia na direção de longa-metragens) intercala sons estranhos de algo sendo cavado e risadas macabras com breves imagens de cadáveres em decomposição, que aparecem graças aos flashes das fotos tiradas por um desconhecido. Finalmente, a câmera mostra um cadáver em cima de uma lápide ao nascer do sol, enquanto a câmera se afasta e escutamos um rádio policial avisando que o cemitério foi profanado.

Ainda aqui? Você é corajoso.

Baseado muito levemente nos crimes do serial killer Ed Gein (assim como o clássico “Psicose”, já mencionado anteriormente nesse blog), “O Massacre da Serra Elétrica” conta uma história simples: cinco jovens viajam pela estrada no Texas, com o objetivo de visitarem a antiga casa onde dois deles passaram a infância, Sally (Marilyn Burns, uma atriz espetacular cuja carreira infelizmente jamais deslanchou) e seu irmão paralítico Franklin. O que nenhum deles sequer imagina é que nas redondezas vive uma sinistra família composta pelas seguinte pessoas: “Old Man” (“Homem Velho”), o dono de um posto de gasolina e o mais “normal” da família, o “Hitchhiker” (“Caroneiro”), um completo maluco que gosta de profanar túmulos, e cortar seu próprio corpo; o Avô, um homem com mais de 100 anos de idade e que sequer anda ou fala; e é claro, Leatherface (“Rosto de Couro”), um homem imensamente alto e gordo que sofre de problemas mentais e que utiliza máscaras feita de rostos humanos e gosta de utilizar uma motosserra como instrumento e arma. Os quatro cometem assassinatos na região há anos (como sugere o fato deles terem dezenas de carros escondidos nos fundos da sua casa), e talvez algo ainda pior, como parece sugerir o breve diálogo onde o Caroneiro reclama que ele e Leatherface tem que matar as pessoas e o Homem Velho apenas cozinha...

“O Massacre da Serra Elétrica” tinha tudo para ser um festival de sangue e tripas, e essa parece ser a imagem que a maioria das pessoas tem do filme. Ledo engano. Como tinha apenas uma miséria de orçamento e tinha esperança de conseguir uma classificação indicativa leve, Tobe Hooper deixou a violência do filme no nível mínimo, ressaltando mais o horror psicológico: quando um homem leva uma marretada na cabeça, Hooper mostra a cena de longe, mostrando apenas o corpo se debatendo antes de levar a segunda marretada que encerra a sua vida. Ou mais tarde, quando uma pobre vítima é colocada em um gancho de açougue, Hooper jamais mostra as costas da personagem sendo destruída pela lâmina, e ao invés disso ressalta apenas as expressões de horror no rosto dela e o sangue jorrando discretamente atrás dela, de uma maneira quase imperceptível.

Ironicamente, Hooper conseguiu apenas, com essa decupagem, ressaltar ainda mais o horror da situação e tornar as cenas mais assustadoras do que elas poderiam ter sido se ele tivesse focado no gore.

Repleto de cenas antológicas que depois se tornariam clichê no gênero (incluindo a já obrigatória perseguição do vilão à ultima vítima pela floresta à noite), “O Massacre da Serra Elétrica” guarda o seu melhor (ou pior, dependendo do seu ponto de vista) para o clímax, onde a última sobrevivente é forçada a participar do jantar dos seus assassinos. Confiando na inteligência do seu espectador e sem jamais ressaltar o óbvio (de novo, não é difícil imaginar o que será que os vilões estão comendo...), Hooper opta por destacar, com a sua câmera, os cômodos da casa feitos de ossos e pele humana (o que ressalta até que ponto chega a loucura dessa família) e os olhos horrorizados de Marilyn Burns, cujo histerismo é tristemente justificável.

Tobe Hooper, infelizmente, não faria jus a promessa que demonstrava ser aqui. Ele chegou a realizar mais alguns bons filmes em seguida, como “Eaten Alive”, “Pague Para Entrar, Reze Para Sair”, o clássico “Poltergeist” e “Força Sinistra”. Infelizmente, seu vício em drogas e brigas constantes com os produtores de Hollywood teriam um preço, e a partir da segunda metade dos anos 80, Hooper realizaria filmes que ficavam entre o regular e o medíocre, como “Invasores de Marte”, “The Mangler”, “Crocodilo”, etc. O diretor faleceu em 2014.

“O Massacre da Serra Elétrica” inevitavelmente se tornou uma franquia, mas não das melhores. Em 1986, o próprio Tobe Hooper retornou para dirigir “O Massacre da Serra Elétrica 2”, a única continuação que teve envolvimento do diretor. Infelizmente, Hooper já estava em sua fase decadente, e o resultado é um filme com um bizarro tom de auto-paródia que nem sempre funciona, ignorando os sustos para focar no banho de sangue e comédia camp. “O Massacre da Serra Elétrica 3” (1990) foi prejudicado pela censura, que mutilou o filme, e a ruindade extrema de “O Massacre da Serra Elétrica – O Retorno” em 1997 enterraria a franquia por alguns anos. Em 2003, foi lançado uma refilmagem que foi bem-sucedida de bilheteria e ganhou um prelúdio em 2006. O fracasso desse último acabou enterrando a franquia por mais alguns anos, até que Hollywood realizou uma nova continuação que ignorava quase todos os filmes anteriores e era uma continuação direta do original de 1974. Depois um novo prelúdio fracassado seria realizado em 2017 e... bom, os ciclos sempre se repetem em Hollywood.

Até a inevitável nova continuação/refilmagem/reboot/prelúdio/o escambau surgir, fique sempre com o original a sua disposição. É uma garantia eterna de bons sustos e talvez de algumas risadas nervosas. E é claro, um desejo ímpeto de tomar banho assim que terminar o filme, para se lavar da sujeira daquele universo e daquela família canibal...





Allan Veríssimo

Cinéfilo, formado em Cinema e Audiovisual pela São Judas, cursando Jornalismo na Universidade Santa Cecília.

É Diretor, produtor e roteirista, colaborador dos sites Ligado em Série, Cine Alerta e Gelo e Fogo, além de estar aqui com a gente toda quarta-feira abrilhantando nosso blog com seu talento.

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